Paulo Freire como contralógica institucional: governança, limiar e a fragilidade da alfabetização de adultos no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.15763Keywords:
alfabetização de adultos, governança educacional, Educação de Jovens e Adultos, pedagogia crítica, Paulo FreireResumen
Este artigo propõe uma releitura do lugar de Paulo Freire no campo da alfabetização de adultos no Brasil, deslocando o debate do plano pedagógico para o plano institucional. Argumenta-se que a alfabetização de adultos tem sido historicamente organizada segundo uma gramática campanhista do limiar, orientada à produção de competências mínimas mensuráveis, certificáveis e administrativamente encerráveis. Essa racionalidade consolidou-se em programas como a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (1947) e o MOBRAL (1967–1985), e permanece operante em políticas recentes. Em contraste, a pedagogia freireana é interpretada como uma gramática relacional fundada em temporalidade longa, historicidade dos sujeitos, diálogo e práxis, cujos requisitos institucionais são incompatíveis com os dispositivos de governança que estruturam o campo. A partir de uma abordagem genealógica, o artigo analisa três momentos-chave (CEAA, Angicos e MOBRAL) como condensações de racionalidades concorrentes e demonstra por que a contralógica freireana permaneceu estruturalmente frágil: não por insuficiências pedagógicas, mas pela incapacidade das instituições estatais de absorver práticas baseadas na relação, na abertura e na duração. Ao explicitar esse desajuste entre formas pedagógicas e racionalidades de governança, o artigo contribui para o campo da Educação de Jovens e Adultos ao reposicionar o legado freireano como problema institucional e ao sugerir uma agenda de pesquisa centrada nos regimes de governança que tornam certas formas de alfabetização possíveis e outras improváveis.
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