Corpos que revelam o Messias: impedimento e reconhecimento de pessoas com deficiência nas narrativas bíblicas
DOI:
https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.18238Palavras-chave:
Deficiência, Jesus, Bíblia, Reconhecimento, ParticipaçãoResumo
Este artigo, estruturado por um processo de análise documental de textos do Antigo e do Novo Testamento, analisa as relações entre religião e deficiência a partir das narrativas bíblicas, compreendidas como construções históricas, políticas e culturais que participaram da constituição de gramáticas de reconhecimento, pertencimento e exclusão no imaginário ocidental. A partir dessa apropriação, investigamos como diferentes impedimentos corporais, sensoriais, psíquicos e comportamentais foram significados nesses registros e como tais representações foram historicamente reelaboradas culturalmente. A materialização desse procedimento tornou evidente que a Bíblia não apresenta uma concepção unívoca da deficiência, coexistindo em suas narrativas sentidos relacionados à impureza, interdição, pecado e exclusão com compreensões vinculadas ao cuidado, acolhimento, participação e reconhecimento, o que desestabiliza a associação do impedimento ao campo demonológico como se representasse uma constante, especialmente quando consideramos as linhas do Novo Testamento, cuja feitura promove um deslocamento simbólico significativo ao tomar corpos anteriormente submetidos a fronteiras religiosas da impureza como lugares privilegiados da manifestação da ação divina. Com base nesse pressuposto, sustentamos que pessoas com impedimentos não figuram apenas como destinatárias das curas e intervenções de Jesus, desempenhando função narrativa angular na construção e no reconhecimento público de sua identidade messiânica. Ao fazer isso, buscamos tornar a deficiência, não como elemento periférico, mas sim como constitutiva da arquitetura narrativa da cristologia evangélica, o que nos permite compreender os milagres também como acontecimentos que reorganizam fronteiras de pertencimento e reconhecimento social. Em diálogo com o modelo social, concluímos que as gramáticas religiosas não foram eliminadas pela secularização, permanecendo, em articulação com outros saberes, como uma das matrizes históricas mediante as quais o Ocidente atribui sentidos ao corpo, à diferença, à vulnerabilidade e aos impedimentos, daí a importância de sua apropriação e da forma pela qual realizamos esse processo.
Downloads
Enviado
Postado
Como Citar
Série
Copyright (c) 2026 Gustavo Martins Piccolo

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Plaudit
Declaração de dados
-
Os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito


