Duas dialéticas negativas: experiência espiritual e crítica da ideologia no Adorno tardio
DOI:
https://doi.org/10.1590/0101-3173.2026.v49.n2.e026008Palavras-chave:
Theodor W. Adorno, Dialética negativa, Não identidade, Experiência espiritual, Crítica da ideologiaResumo
Dialética negativa não é apenas o nome do livro de Adorno de 1966, mas também do procedimento teórico-crítico elaborado ali pelo autor. O presente artigo defende a tese de que não há um procedimento dialético negativo, mas sim dois. O primeiro deles é a experiência espiritual: o imergir em objetos efêmeros e pueris. Em tal experiência, a imersão busca ir além da mera classificação desses objetos: por meio da constelação de conceitos ela pretende abrir aquilo que o conceito sozinho não alcança, o não idêntico. Não identidade, nesse caso, é sinônimo de não conceitual. Esse procedimento é bem ilustrado pelo ensaio de Adorno As estrelas descem à Terra. O segundo procedimento é o da crítica da ideologia. Esse procedimento tem por objeto o contraste entre conceitos enfáticos, mais precisamente aqueles presentes em discursos de legitimação, e sua efetivação. A crítica da ideologia busca tanto denunciar a não realização das promessas contidas nesses conceitos quanto mostrar que esses próprios conceitos já contêm essa frustração. Não identidade, agora, significa as diferenças entre o discurso de legitimação e a realidade social, a marca do antagonismo existente. O ideal seria um mundo no qual os conceitos fossem de fato efetivados, onde haveria uma identidade racional entre o conceito enfático e o mundo sancionado por ele. O primeiro modelo da Dialética negativa, “Liberdade”, é o paradigma deste segundo procedimento.
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