Aparência e Realidade na Era da Imagogênese Automatizada
DOI:
https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.14960Palavras-chave:
imagogênese, iconomorfose, práticas sociais do ver, confiança social, racionalidade social, epistemologia visual, IA generativa, deepfake, LHC, jornalismoResumo
Este ensaio analisa a transformação de nossa relação com a aparência e a realidade, impulsionada pela transição de técnicas manuais e mecânicas para um regime de imagogênese automatizada. Partindo de uma análise inicial (2015), a pesquisa é atualizada para propor uma taxonomia das operações automáticas sobre a aparência — des-velar (descobrir), capturar (cobrir) e sintetizar (encobrir) —, vinculando cada uma a práticas jornalísticas análogas. Introduz-se o conceito de iconomorfose: a metamorfose tecnológica da imagem, hoje acelerada por avanços em Inteligências Artificiais Generativas e os modelos de texto-para-imagem. Argumenta-se que essa automação, mais do que criar uma crise da evidência, revela a insuficiência de uma racionalidade puramente instrumental baseada na verificação técnica e nos obriga a confrontar a primazia das práticas sociais do ver.
Utilizando como estudos de caso as disputas interpretativas em torno do Grande Colisor de Hádrons (LHC) em 2015, o bombardeio de barcaças no Caribe pela Administração Trump em 2025 e a falsa informação em torno das vacinas durante a pandemia de coronavírus (2021), demonstra-se que as práticas sociais são mais determinantes que as próprias tecnologias na construção de significado. Propõe-se uma classificação das imagens baseada no número de camadas interpretativas que ativam, sugerindo que a alfabetização visual contemporânea deve se concentrar na análise dessas disputas. Conclui-se que a proliferação de imagens sintéticas (Deepfakes) atua como um catalisador que força uma transição para uma racionalidade social, onde a confiança não reside na imagem, mas na fonte. A alfabetização contemporânea, portanto, não consiste em aprender a detectar o falso, mas em analisar as camadas interpretativas em disputa e em reconstruir conscientemente a confiança social. A questão fundamental desloca-se de “isto é real?” para “em quem confiamos para construir a realidade?”.
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