A transfusão de sangue sob as lentes da medicina baseada em evidências
DOI:
https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.4544Palavras-chave:
transfusão de sangue, anemia, procedimentos médicos e cirúrgicos sem sangue, preservação de sangueResumo
Introdução: A transfusão de sangue é um tratamento tradicional, popular e considerada pela sociedade e pela comunidade médica como um tratamento que apresenta grandes benefícios na redução da mortalidade. A medicina baseada em evidências é uma abordagem a prática médica que visa a tomada de decisões a partir de provas científicas atualizadas e testadas pelo método científico. O objetivo deste estudo foi avaliar a transfusão de sangue sob as lentes da medicina baseada em evidências. Métodos: Busca não sistemática da literatura, sem restrição de tipo de estudo, data ou idioma, nas bases de dados científicas: MEDLINE, LILACS, EMBASE, Biblioteca Cochrane, SciELO, Scopus e Web of Science, priorizando publicação de revisões sistemáticas e metanálises. Resultados: Revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados demonstrou que transfusão de sangue mais restritiva reduz a mortalidade quando comparada a transfusões menos restritivas. Não foram encontrados ensaios clínicos randomizados placebo-controlados que avaliaram a eficácia da transfusão de sangue, configurando uma incerteza do efeito da transfusão de sangue, tanto na modalidade restritiva como na liberal, na mortalidade. Revisão sistemática da qualidade das diretrizes sobre transfusão de sangue demonstrou que as diretrizes foram realizadas com baixo rigor metodológico. Revisão sistemática concluiu que a maioria dos estudos não demonstrou melhora da oxigenação tecidual com a transfusão de sangue. Revisões sistemáticas de estudos observacionais demonstraram uma associação da transfusão de sangue com aumento da mortalidade e todos os critérios de causalidade de Bradford Hill foram contemplados, apontando uma relação causal entre a transfusão de sangue e aumento dos desfechos adversos. Revisões sistemáticas demonstraram que tanto pacientes quanto médicos apresentam tendência a superestimar os verdadeiros benefícios de tratamentos e subestimar seus danos. Conclusão: A base de evidências científicas para recomendar a transfusão de sangue é fraca, não havendo evidências robustas de que o tratamento reduza a mortalidade. Há acúmulo significativo de evidências demonstrando pior desfecho clínico com este tratamento, revelando nítida discordância sobre o modo que este tratamento é percebido pela sociedade e pela comunidade médica. Tal constatação leva a implicações éticas e legais relacionadas à qualidade das informações que são oferecidas ao paciente para obtenção do seu consentimento informado e esclarecido, assim como o respeito à sua autonomia quanto ao uso deste tratamento. A comunidade médica, jurídica e a sociedade devem, com urgência, reavaliar a transfusão de sangue sob os princípios da medicina baseada em evidências.
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