O corpo impossível: biopolítica, redes digitais e a produção histórica da normalidade em narrativas de mulheres com deficiência no Brasil contemporâneo
DOI:
https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.16191Palavras-chave:
Biopolítica, Gênero, Pessoas com deficiência, Plataformas Digitais, Teoria CripResumo
O artigo analisa como narrativas digitais produzidas por mulheres com deficiência física no Brasil participam da produção e do tensionamento dos regimes contemporâneos de normalização corporal. Situada no campo da História do Tempo Presente e da História Digital, a pesquisa adota abordagem qualitativa de inspiração histórico-discursiva, articulando contribuições da biopolítica foucaultiana, dos estudos feministas, da teoria crip e das discussões sobre plataformas digitais e visibilidade algorítmica. O corpus documental é composto por 26 perfis e blogs produzidos entre 2010 e 2025, analisados a partir de regularidades discursivas relacionadas à autonomia, sexualidade, reconhecimento social, estética corporal e performance digital. Os resultados evidenciam que as plataformas digitais não operam como espaços neutros de expressão, mas como dispositivos que reorganizam critérios contemporâneos de inteligibilidade e reconhecimento corporal. Identificaram-se quatro regimes discursivos predominantes: a produtividade como condição de legitimidade social; a sexualidade como disputa por inteligibilidade; as economias morais da visibilidade afetiva; e os processos de normalização estética da deficiência. A partir dessas dinâmicas, propõe-se a categoria analítica do corpo impossível, entendida como expressão das exigências contraditórias impostas às mulheres com deficiência nos ambientes digitais contemporâneos. Conclui-se que a ampliação da visibilidade pública da deficiência não representa o desaparecimento das normas capacitistas, mas sua reorganização em circuitos de hiperexposição regulada, nos quais reconhecimento, desejo, produtividade e adequação estética tornam-se permanentemente negociados.
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